É impressionante o cinismo humano frente aos seus melindres,
o ser é capaz de qualquer coisa para fugir, tal qual o medo fosse uma sessão
diurna da mais escura tempestade, a dúvida em questão é se o melindre não nasce
verdadeiramente de experiências que vivemos, reais ou irreais, e que como
egoístas como somos as guardamos para nós até o ponto de sermos confrontados
com os nossos monstros, os medos paralisantes de uma sexta-feira agonizante,
porém poderia ser num sábado mesmo.
Um sábado que Pedro pensava ser tranquilo, mas não foi, não
será e não é, na verdade desde que sua mulher, melhor amiga, tinha ido aos
lares dos setes celestes Pedro vivera para não viver, dedicava-se aos sobrinhos,
aos amigos e principalmente ao ar, dava trabalho respirar nesse mundo que se
transfigurava-se pra ele em uma ambiente hostil.
Acordou com o burburinho dos pássaros a sua janela, pombos,
lindos pombos defecando em sua vista que dava ao muro, com pesar venceu sua
primeira batalha do dia, exatamente às 12h27min, um feito muito comum ao
guerreiro Pedro.
Levantou seus ombros doridos de sorrisos maliciosamente
verdadeiros perante o mundo, ergueu seus olhos famintos de misericórdia e
abaixou seu queixo frouxo caprichosamente forjado pelo boxeador da zona de
calafrios.
Seu estomago ainda reclamava suas atitudes e Pedro já estava
a levitar pesadamente pelos postes, quem sabe não se contaminasse pela iluminação
fraca da sua rua, quem sabe um carro não pudesse alçar voo, principalmente em
direção a seus olhos.
Arrastou-se pelos caminhos retos e batidos de seu
pensamento, e aproximou seu corpo, no máximo até o ponto de locomoção por eixos
com sistemas hidráulicos e pneumáticos, e adentrou sua constante porta dos
infernos. Mais uma vez o dia não iria mudar, mais um dia que ele não permitia a
mudança transformar.
Não sentia vontade de permanecer ali, não sentia mais
vontade de enfrentar, ele apenas deixou seu corpo andar, apenas deixou sua
mente atrofiar, e teceu lindos tapetes persas, confeccionado pelas vidas de
terceiros, feitos à mão da caridade de seus inimigos.
Ele, dia após dia, misturava seu sentimento de ausência de
emoção profunda com a falta de metade de seu coração, confundia morte com vida,
atrapalhava-se na rinha de suas paixões.
Como uma máquina que tem a certeza de ter certeza nenhuma,
ele arrastou seu dia, seus anos, sua vida a cada minuto que sua respiração
teimava em assoprar ferragens, ao invés de pólen da mais singela flor divina.
O dia terminava como se começasse agora, o sol se punha ao
mesmo tempo em que a lua desaparecia, quem havia de sequestrar a lua, quem
havia de tampar o sol com peneira, a muito os meteoros excluíram nosso planetinha,
a muito tempo Pedro tinha desaparecido com seu próprio universo.
Ele naquele momento, como nos momentos de seu futuro do
pretérito, adentrava seu limbo limpo como uma casca de arvore em uma sala cirúrgica
prestes a operar mais um dia de sua vida mesquinha e melindrosa de seu cinismo perante suas viagens ao tempo.
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