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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Trincheiras


  Eu estava em paz no meio a guerra, enquanto todos atiravam contra mim, eu me calava, não por medo ou por raiva, mas por não sentir a revolta bater no meu peito, eu aceitei o fim, afinal, era o melhor para as duas partes, não poderia mais reter todo o poder, e assim me encontrei, entre as trincheiras, na praça de ignorâncias e beliscões.

  Aproveitei e colhi uvas da videira instalada perto do banco, onde saquei todas as lembranças e memórias que distribui ao universo tomando meu mais profundo cale-se, reiterando meu cálice. Chega um dia que temos que nos levar a sério, e nossas lágrimas serão fonte de alimento para a mais bela flor, em meio ao caos nasce o sol, ressurgi uma estrela, e ouvimos o canto divino dos lírios.

  Os tambores soaram em minha audição, meu paladar ressecou-se nos ventos brilhosos que minha visão insistia em querer presenciar, o meu tato percorria com suas garras o suave ambiente da guerra, podia sentir o perfume inigualável do atrito entre as luvas e as pedras que flutuavam sempre na direção norte, bem ao sul de minha face vanguardista que naquele momento resplandecia névoas de neon avermelhadas.

  Minha dor foi despida de sua camuflagem, meus olhos cegos viam em todo lugar a silhueta da senhora guerrilheira, os faróis tentavam em vão direcionar as minhas embarcações, perdidas, elas se cruzaram em olhares preocupantes de dor e desespero, a solidão acompanhava meu vasto exército de um homem só.

  E ali deitado sobre a penumbra das cegueiras, pude ver o céu vermelho olhar para mim, me vislumbrava com ternura e afeto, principalmente minhas feridas de amor eterno que jorravam um sangue quase matrimonial.

  Resisti bravamente aos tiros, conhecia as razões para tal, o que desconheciam, e permanece, eram as verdades escondidas, que eles esconderam, para não impedirem tais massacres, as noites se faziam dias e os dias se vestiam de mar negro.

  É muito mais fácil seguir adiante sem conhecer o verdadeiro passado, sem saber que o lado errado, não era tão errado assim, cresci nas anedotas de que o negro era todas as cores, mas nesse mar só há espaço para gotas avermelhadas, extraídas do suor de nossos guerreiros.

  O barulho resplandecia clarões em meus olhos, não bastava eu aceitar, o fim não iria existir, eu negava aos meus próprios passos a condição de que eles não mais marcariam lugar algum, que eles terminariam assim, sem ar, sem toque, sem se despedirem.

  Era tanto barulho que minh‘alma se contorcia na alegria imaginada pela minha mente, apesar da dor tudo fazia sentido agora, todos os pormenores, as entrelinhas, os sacrifícios, o amor. As flores tentavam me dizer a todo instante a direção que eu me lançava, mas meus timborins não entendiam o sabor harmonioso de seus tons.

  A imagem era lindamente de transformação, a conquista do território para alguns, a desolação de ver suas florestas e arco-íris dar lugar a destruição para o outro, as tropas se retiravam lentamente e meu fardo se estendia na imensidão espacial dos campos batalhados, permaneci em silêncio, tal qual, quando iniciava o tiroteio, na espera de poder provar, que nesse mundo podemos viver juntos e em paz

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