Eu estava em paz no meio a guerra, enquanto todos
atiravam contra mim, eu me calava, não por medo ou por raiva, mas por não
sentir a revolta bater no meu peito, eu aceitei o fim, afinal, era o melhor
para as duas partes, não poderia mais reter todo o poder, e assim me encontrei,
entre as trincheiras, na praça de ignorâncias e beliscões.
Aproveitei e colhi uvas da videira instalada perto do
banco, onde saquei todas as lembranças e memórias que distribui ao universo
tomando meu mais profundo cale-se, reiterando meu cálice. Chega um dia que
temos que nos levar a sério, e nossas lágrimas serão fonte de alimento para a
mais bela flor, em meio ao caos nasce o sol, ressurgi uma estrela, e ouvimos o
canto divino dos lírios.
Os tambores soaram em minha audição, meu paladar
ressecou-se nos ventos brilhosos que minha visão insistia em querer presenciar,
o meu tato percorria com suas garras o suave ambiente da guerra, podia sentir o
perfume inigualável do atrito entre as luvas e as pedras que flutuavam sempre
na direção norte, bem ao sul de minha face vanguardista que naquele momento
resplandecia névoas de neon avermelhadas.
Minha dor foi despida de sua camuflagem, meus olhos
cegos viam em todo lugar a silhueta da senhora guerrilheira, os faróis tentavam
em vão direcionar as minhas embarcações, perdidas, elas se cruzaram em olhares
preocupantes de dor e desespero, a solidão acompanhava meu vasto exército de um
homem só.
E ali deitado sobre a penumbra das cegueiras, pude ver
o céu vermelho olhar para mim, me vislumbrava com ternura e afeto, principalmente
minhas feridas de amor eterno que jorravam um sangue quase matrimonial.
Resisti bravamente aos tiros, conhecia as razões para
tal, o que desconheciam, e permanece, eram as verdades escondidas, que eles
esconderam, para não impedirem tais massacres, as noites se faziam dias e os
dias se vestiam de mar negro.
É muito mais fácil seguir adiante sem conhecer o
verdadeiro passado, sem saber que o lado errado, não era tão errado assim,
cresci nas anedotas de que o negro era todas as cores, mas nesse mar só há espaço
para gotas avermelhadas, extraídas do suor de nossos guerreiros.
O barulho resplandecia clarões em meus olhos, não
bastava eu aceitar, o fim não iria existir, eu negava aos meus próprios passos
a condição de que eles não mais marcariam lugar algum, que eles terminariam
assim, sem ar, sem toque, sem se despedirem.
Era tanto barulho que minh‘alma se contorcia na alegria
imaginada pela minha mente, apesar da dor tudo fazia sentido agora, todos os
pormenores, as entrelinhas, os sacrifícios, o amor. As flores tentavam me dizer
a todo instante a direção que eu me lançava, mas meus timborins não entendiam o
sabor harmonioso de seus tons.
A imagem era lindamente de transformação, a conquista
do território para alguns, a desolação de ver suas florestas e arco-íris dar
lugar a destruição para o outro, as tropas se retiravam lentamente e meu fardo
se estendia na imensidão espacial dos campos batalhados, permaneci em silêncio,
tal qual, quando iniciava o tiroteio, na espera de poder provar, que nesse
mundo podemos viver juntos e em paz.
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